Aventuras na fazenda

Um dia de bosta.

           Um dos lugares que eu mais costumava ir durante a infância e adolescência foi a fazenda Regina, que pertencia ao Seu João, avô do Bruno, meu amigão de infância.
           Como ela ficava longe de São Paulo, não podíamos ir todo fim de semana – embora não faltasse vontade –, pegávamos feriados emendados. A viagem era sempre bem divertida, marcada por muito papo frouxo, piadas e brincadeiras ao som de músicas antigas das fitas do Seu João. Íamos assim durante 6 horas até uma estradinha de terra, momento em que ele nos deixava subir na caçamba da caminhonete para irmos sentindo o ar do campo. Antes de chegarmos à grande porteira da entrada, já podíamos ver os enormes pastos verdes onde cavalos, bois, porcos e búfalos andavam e se alimentavam livremente para depois virar deliciosos bifes – os cavalos se salvavam desse destino.
          Lembro que de tão grande que a fazenda era, Seu João sempre carregava um caderninho com anotações de quais animais estavam em qual pasto. Algo que não acontecia com o Joel, o faz-tudo da fazenda, que sabia essa relação de cor. Inclusive, na maioria dos dias, o Seu João botava eu e o Bruno para trabalhar com o Joel e seus 3 cães border collies: Jaiminho, Jorge e Jonas, na manutenção das terras e dos animais.
          Em um belo dia desses, Seu João nos chama para dar uma volta pela fazenda. Ele queria ver os animais mais novos, os que estavam crescendo, quem estava pronto para o abate e assim por diante. Vamos eu, Bruno, Seu João, no seu lendário cavalo preto, Joel e outros peões. Em certo momento, nos deparamos com uma árvore centenária, linda, com uma copa verde que ia até o céu e galhos entrelaçados que iam até o chão. Todos começam a rodeá-la para continuar o caminho. Eu não. Como um cavaleiro destemido começo a ir reto. Ouço Seu João falando: “Pedro, não vai por aí não, melhor dar a volta!”. Na hora, penso: “Puff! Venho aqui há vários anos, já ajudei o Joel em todo tipo de coisa. Sei andar de cavalo e passar por baixo de uma simples árvore”. E lá fui eu seguindo sozinho, olhando a paisagem quando… um enorme galho me atinge no peito! O impacto não só me derruba como assusta os cachorros do Joel, que latem fortemente, e faz meu cavalo sair em disparada, com meu pé preso ao estribo. Sou arrastado por alguns metros, levantando grama e terra, até que o Bruno cavalga rapidamente chegando na frente do meu cavalo e consegue acalmá-lo. Eu me levanto com um corte no braço e monto novamente no cavalo. A vergonha está estampada na minha cara e os ouvidos estão cheios de terra e de “a gente avisou” vindo dos mais experientes.
        Voltamos para a casa, onde a mulher do Seu João, Dona Majô, faz um curativo em mim e sugere que eu ficasse na casa. Algo que ignorei completamente: “eu tô bem, pronto pra outra” disse. Então eu e o Bruno decidimos ir à casa do Joel, porque além dele, conhecíamos suas 3 filhas: Joelma, de 12, e Jaqueline, de 11, e Jane, de 10. Logo que chamamos as meninas, elas apareceram com uma bola e uma ideia: queimada. Começamos o jogo. Após algum tempo da bola indo de um lado ao outro, muitas esquivas e queimadas só sobramos eu e Jaque no jogo. Ela joga a bola e eu pulo com tudo na lama para escapar. Infelizmente, Jaque só fingiu que ia jogar, e quando eu estou no chão, me acerta com a última e vencedora bolada. Levanto, pela segunda vez naquele dia, com a roupa inteira suja. Até que Jane aponta para minhas costas e diz com seu sotaque interiorano:
        — O que é isso?
        — Ué?! É lama, não tá vendo?! – respondo.
        — Eu sei, mas tá estranho.
        — Tá com um cheiro estranho na verdade. – Joelma afirma e todos concordam.
        Eu pego um pouco, coloco no dedo, a turma dá uma cheirada, e descobrimos que, o que parecia ser barro impregnado por toda minha roupa, era, na verdade, bosta de cavalo! Logo tiro a camiseta e com a cabeça baixa, subo para a casa para tomar um banho e me trocar. Naquele momento – finalmente – resolvo fazer algo sensato e seguir o conselho de Dona Majô: ficar na rede da varanda apenas olhando a paisagem até a hora do jantar para evitar qualquer novo vexame.
        Os dias seguiram trazendo novas aventuras na fazenda Regina, histórias que posso contar mais tarde. Porque, no fim das contas, os dias ruins passam, os tombos cicatrizam, a vergonha diminui — mas o cheiro de bosta de cavalo…esse fica para sempre.