A união entre um teste e um casamento.
Durante minha vida toda, estudei na mesma escola. Um colégio jesuíta, que apesar de ser religioso, não era só para meninos – ainda bem – como os de antigamente. Outro ponto é que ele era enorme. Para você ter uma noção, tinha inúmeras quadras poliesportivas, piscinas, 2 prédios, um andar só de dormitório dos padres e, claro, uma igreja ao lado.
A vida seguia tranquila, até chegar na 8ª série, quando começaram a falar de carreira e surgiram os “testões”. Simulados do vestibular que compunham a nota de todas as matérias e aconteciam a cada 2 meses. E para melhorar, sempre aos sábados.
Faltando 2 dias para a próxima prova, ao invés de revisar o conteúdo, bolo planos que me ajudariam com minha maior inimiga: a matemática. Chego em uma ideia. No dia seguinte, me aproximo do meu amigo Rafa, considerado o aluno mais esperto da série e único que toparia me ajudar, e explico:
— O segredo está na borracha: cada posição dela na mesa significa uma das alternativas – conforme falo, vou apontando – no canto superior é A, inferior B, meio C…
Ele pergunta:
— Tá certo, mas como você vai saber em qual questão estou?
Coloco a mão no queixo e enquanto meus olhos procuram um foco, acabo vendo um outro aluno comendo salgadinho.
— Já sei! Você não leva lanche pra prova?
— Levo. Uma barrinha de cereal.
Combinados então que o número da mordida corresponderia ao número da questão.
Chega a hora da prova, consigo sentar na diagonal traseira do Rafa, lugar perfeito para vê-lo sem dar bandeira. A primeira matéria é Geografia. Vou respondendo pergunta por pergunta, sempre com um olho na prova e outro no meu amigo. Afinal, se tem uma coisa que a gente não combinou é o momento que ele sentiria fome.
Pulo a próxima que é Matemática. As horas passam junto à História, Português e Física. Quando estou em Química, ele pega na barrinha, mas apenas a ajeitá-la na mesa, nada de mordida. “Meu Deus, que ordem que ele tá fazendo?” penso. Passo para Biologia. Finalmente, Rafa abre a barrinha e dá a 1ª mordida, eu vou para Matemática e como um espião da Segunda Guerra, ele vai me passando código por código: 1ª pergunta resposta B, 2ª C, 3ª B… até que terminamos. Volto pra Biologia e, depois de um tempo, termino o testão.
Na saída da prova, batemos as respostas com outros amigos e concluímos que acertamos 80% de Matemática! Na verdade, o Rafa acerta 100%, eu que errei um ou outro código. Ainda assim, tem outras matérias para eu ir bem, e, por isso, vou à igreja do colégio pedir uma nota divina.
Entro pelas imensas portas e noto um clima diferente. Uma iluminação à meia luz formada por grossas velas, arcos de flores espalhados na ponta dos bancos onde estão sentadas pessoas de social e um tapete vermelho que percorre o centro e leva a um casal no altar. A princípio, acredito que é renovação de votos, porém ao ver o homem de terno e a mulher de vestido branco, vem a certeza de ser um casamento.
Eu me posiciono perto dos convidados para assistir a cerimônia que, infelizmente, já estava no final, então só dá para acompanhar o beijo de encerramento. Todos ovacionam de pé enquanto o agora casal se encaminha para a saída da igreja. Entre acenos e sorrisos, a esposa para por um instante e fixa o olhar no participante inusitado: um menino de uniforme, no último banco, que também a aplaude enlouquecidamente. Ela deixa escapar uma cara que mistura estranheza e curiosidade, mas segue o baile – ou melhor, o casamento.
No fim das contas, sai de lá sem reza nem nota boa. Em compensação, fui ao meu 1° casamento e ainda saí com um presente abençoado, já que peguei uma das flores da decoração e levei para minha mãe.
