Destino: Londres

12 mil metros de ansiedade

          Aeroporto. Estou realizando o sonho de ir para Londres, lugar que sempre namorei à distância, para fazer um intercâmbio de 3 meses. Eu me despeço dos meus pais e, depois do último abraço, minha mãe me pergunta pela 5ª vez:
          — Tudo certo?
          — Tudo certo, mãe. Pode confiar.
          — Mas tem certeza?
          — Tenho. Não tem como dar errado.
          — Ah, não esquece isso – e me dá meu passaporte italiano.
Após esperar um tempo e conferir umas 10 vezes se eu estou no lugar certo, finalmente chamam o voo no meu portão.
Entro no avião e, para ir treinando o inglês, encho o peito e digo em alto em bom som “good night” para a tripulação, que responde “boa noite” revirando os olhos. Os passageiros se acomodam em suas cadeiras. Na minha fileira, fico na janela, no meio um inglês e no corredor uma japonesa cuja família está na fileira ao lado. Às 22 horas, o piloto manda todos desligarem os celulares e a tripulação iniciar o ritual de decolagem, no mesmo instante inicio o meu: me agarrar à poltrona.
          Quando o avião atinge a famosa altitude de cruzeiro, as aeromoças servem o jantar tranquilamente, em seguida, apagam as luzes para os passageiros dormirem. Eu me distraio com um filme até que um pequeno pensamento, uma mínima fagulha de ideia, cruza minha mente. Sem prestar muita atenção, resolvo segui-la e confiro novamente as coisas na minha mala de mão: óculos de sol, ok; livro, ok; remédios, ok; caderninho, aqui; estojo, aqui também.
          — Ué?! Cadê os documentos da escola e da estadia? – me pergunto enquanto rio de nervoso a 12 mil metros de altura e sem comunicação com o mundo exterior.
          O coração acelera, confiro tudo de novo e nada. Confiro uma 2ª vez e nada. 3ª vez e nada. Um suor percorre meu rosto e outro desce pelas minhas costas. Minha cabeça vai a mil procurando respostas, então sinto no bolso do casaco uma forma estranha. “O passaporte italiano!” – minha mente e minha boca se sincronizam em surpresa.
          Sim! O passaporte italiano que veio com a cidadania; a mesma cidadania cujo advogado que estava fazendo os trâmites teve um infarto e morreu; o mesmo advogado que deixou tudo organizado para sua assistente, Dra. Juliana, que, muito competente, seguiu o processo com louvor. A única coisa que poderia salvar meu destino da deportação era esse passaporte italiano. 
          A questão é que eu não tinha a certeza se poderia entrar na Inglaterra com ele, mas uma pessoa sim: o inglês que dorme profundamente ao meu lado. E eu tinha exatamente 9 horas para acordá-lo e falar com ele antes que o voo descesse.
          No começo, fico mexendo na minha mala fazendo barulho, batuco na mesa de refeição – bem desengonçado – até que acordo a japonesa que, de longe, me dá um tapinha na cabeça e faz um sinal de silêncio. Disfarço por um tempo e parto para táticas mais discretas passando a dar no inglês uma ou outra cutucada “sem querer”. Como não resolve, é a vez de pequenas cotoveladas que também não funcionam. 
          Sem mais ideias e ainda com a mente acelerada, penso no que houve com os documentos e me lembro que havia 2 envelopes iguaizinhos – um com as passagens e outro com os comprovantes da moradia e da escola. Penso que devo ter pego um deles, achando que tinha pego os dois. E, provavelmente, o envelope que sobrou está em cima da minha bancada em casa.
          O relógio avisa 2 da manhã e acabo dormindo sem perceber. Um longo sono, mas picotado, pois vira e mexe acordo acreditando que o inglês está no fuso horário de Londres e deve estar acordado, o que não acontece. 
Já foi metade do voo, ou seja, faltam 5 horas para o desembarque. Fico de pé para ir ao banheiro, peço licença, a japonesa percebe e dá um chacoalhão forte no inglês que, finalmente, acorda meio desnorteado. Os dois se levantam para eu poder sair. Como estou apertado, deixo para perguntar na volta, afinal eles vão ter que levantar de novo. Nem dito, nem feito, quando retorno, o inglês não está lá. Foi ao banheiro também. Decido esperar, só que caio no sono novamente. 
          Acordo de repente num susto com o sol nascendo, as luzes do avião acesas e as aeromoças servindo o café da manhã. Olho para o lado e uma lágrima escorre no meu rosto: o inglês está acordado. Sem perder tempo, cutuco ele e explico minha situação. Ele segura o riso e me diz: “acho que não tem problema. Deve dar pra entrar sim.” Fico relaxado, mas só por alguns minutos até uma turbulência atingir o avião. Eu seguro firme na poltrona e sinto um cutucão. É o inglês que me explica que também tem medo de voar e mostra um remédio para dormir que ele toma. Ao que respondo: “jura, nem percebi.” 
          O avião pousa em Londres. Hora de encarar a imigração. Segurando forte o passaporte italiano, sigo a placa de “cidadãos europeus” até uma fileira de catracas. Fico parado em frente a uma delas sem saber o que fazer e observo pessoas colocando seus passaportes na leitora da catraca. Engulo seco e faço o mesmo com o meu. “Pih!”. A catraca faz um barulho, fica verde e se abre como São Pedro abrindo as portas do céu.
          Mais tarde e mais tranquilo, pego o Wi-Fi do aeroporto para avisar que cheguei e de repente, recebo dezenas de mensagens da minha mãe com as fotos de todos os documentos. Ela pergunta se está tudo certo, respondo que sim e ela retruca:
          — Mas tem certeza?