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	<title>Arquivos cronica - Pedro Assun</title>
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	<description>Redator - Roteirista - Escritor</description>
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	<title>Arquivos cronica - Pedro Assun</title>
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		<title>Aventuras na fazenda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[adolescencia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um dia de bosta. &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160;Um dos lugares que eu mais costumava ir durante a infância e adolescência foi a fazenda Regina, que pertencia ao Seu João, avô do Bruno, meu amigão de infância.&#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160;Como ela ficava longe de São Paulo, não podíamos ir todo fim de ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 35px;">Um dia de bosta.<br /></span><span id="more-4936"></span></p>



<p><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;</strong>Um dos lugares que eu mais costumava ir durante a <a href="https://pedroassun.com.br/cronica/reu-primario/">infância</a> e <a href="https://pedroassun.com.br/cronica/estacionamentro/">adolescência</a> foi a fazenda Regina, que pertencia ao Seu João, avô do Bruno, meu amigão de infância.<br></span><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;</strong>Como ela ficava longe de São Paulo, não podíamos ir todo fim de semana – embora não faltasse vontade –, pegávamos feriados emendados. A viagem era sempre bem divertida, marcada por muito papo frouxo, piadas e brincadeiras ao som de músicas antigas das fitas do Seu João. Íamos assim durante 6 horas até uma estradinha de terra, momento em que ele nos deixava subir na caçamba da caminhonete para irmos sentindo o ar do campo. Antes de chegarmos à grande porteira da entrada, já podíamos ver os enormes pastos verdes onde cavalos, bois, porcos e búfalos andavam e se alimentavam livremente para depois virar deliciosos bifes – os cavalos se salvavam desse destino.</span><br><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>Lembro que de tão grande que a fazenda era, Seu João sempre carregava um caderninho com anotações de quais animais estavam em qual pasto. Algo que não acontecia com o Joel, o faz-tudo da fazenda, que sabia essa relação de cor. Inclusive, na maioria dos dias, o Seu João botava eu e o Bruno para trabalhar com o Joel e seus 3 cães border collies: Jaiminho, Jorge e Jonas, na manutenção das terras e dos animais.</span><br><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>Em um belo dia desses, Seu João nos chama para dar uma volta pela fazenda. Ele queria ver os animais mais novos, os que estavam crescendo, quem estava pronto para o abate e assim por diante. Vamos eu, Bruno, Seu João, no seu lendário cavalo preto, Joel e outros peões. Em certo momento, nos deparamos com uma árvore centenária, linda, com uma copa verde que ia até o céu e galhos entrelaçados que iam até o chão. Todos começam a rodeá-la para continuar o caminho. Eu não. Como um cavaleiro destemido começo a ir reto. Ouço Seu João falando: “Pedro, não vai por aí não, melhor dar a volta!”. Na hora, penso: “Puff! Venho aqui há vários anos, já ajudei o Joel em todo tipo de coisa. Sei andar de cavalo e passar por baixo de uma simples árvore”. E lá fui eu seguindo sozinho, olhando a paisagem quando… um enorme galho me atinge no peito! O impacto não só me derruba como assusta os cachorros do Joel, que latem fortemente, e faz meu cavalo sair em disparada, com meu pé preso ao estribo. Sou arrastado por alguns metros, levantando grama e terra, até que o Bruno cavalga rapidamente chegando na frente do meu cavalo e consegue acalmá-lo. Eu me levanto com um corte no braço e monto novamente no cavalo. A vergonha está estampada na minha cara e os ouvidos estão cheios de terra e de “a gente avisou” vindo dos mais experientes.</span><br><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>Voltamos para a casa, onde a mulher do Seu João, Dona Majô, faz um curativo em mim e sugere que eu ficasse na casa. Algo que ignorei completamente: “eu tô bem, pronto pra outra” disse. Então eu e o Bruno decidimos ir à casa do Joel, porque além dele, conhecíamos suas 3 filhas: Joelma, de 12, e Jaqueline, de 11, e Jane, de 10. Logo que chamamos as meninas, elas apareceram com uma bola e uma ideia: queimada. Começamos o jogo. Após algum tempo da bola indo de um lado ao outro, muitas esquivas e queimadas só sobramos eu e Jaque no jogo. Ela joga a bola e eu pulo com tudo na lama para escapar. Infelizmente, Jaque só fingiu que ia jogar, e quando eu estou no chão, me acerta com a última e vencedora bolada. Levanto, pela segunda vez naquele dia, com a roupa inteira suja. Até que Jane aponta para minhas costas e diz com seu sotaque interiorano: <br></span><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>— O que é isso?<br></span><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>— Ué?! É lama, não tá vendo?! &#8211; respondo.</span><br><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>— Eu sei, mas tá estranho.</span><br><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>— Tá com um cheiro estranho na verdade. &#8211; Joelma afirma e todos concordam.</span><br><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>Eu pego um pouco, coloco no dedo, a turma dá uma cheirada, e descobrimos que, o que parecia ser barro impregnado por toda minha roupa, era, na verdade, bosta de cavalo! Logo tiro a camiseta e com a cabeça baixa, subo para a casa para tomar um banho e me trocar. Naquele momento &#8211; finalmente &#8211; resolvo fazer algo sensato e seguir o conselho de Dona Majô: ficar na rede da varanda apenas olhando a paisagem até a hora do jantar para evitar qualquer novo vexame.</span><br><span style="font-size: 30px; font-family: Fonte-Pedro;"><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;</strong>Os dias seguiram trazendo novas aventuras na fazenda Regina, histórias que posso contar mais tarde. Porque, no fim das contas, os dias ruins passam, os tombos cicatrizam, a vergonha diminui — mas o cheiro de bosta de cavalo…esse fica para sempre.</span></p>
<p>&nbsp;</p>




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		<title>Akademia</title>
		<link>https://pedroassun.com.br/cronica/akademia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[acadamia]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Bora malhar a língua?            Com o incentivo da minha mãe, sempre pratiquei atividades físicas, principalmente artes marciais ⎯ foram anos de judô e kung fu ⎯ e agora, ao lado da minha casa, surgiu uma oportunidade: o boxe, num lugar chamado Akademia. Acontece que a Akademia não é exclusivamente de ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 35px;"><strong>Bora malhar a língua?</strong></span></p>
<p><span id="more-4893"></span></p>



<p><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>Com o incentivo da minha mãe, sempre pratiquei atividades físicas, principalmente artes marciais ⎯ foram anos de judô e kung fu ⎯ e agora, ao lado da minha casa, surgiu uma oportunidade: o boxe, num lugar chamado Akademia. Acontece que a Akademia não é exclusivamente de luta; ela reúne diversos tipos de modalidades, de pessoas e de loucuras<strong>.<br /></strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>A começar que ela foi aberta ainda em construção. Isso significa que era bem comum dividir o espaço do treino com pedreiros exercitando o antebraço na pintura, fazendo séries com o balde de massa e sustentando um agachamento para finalizar o rodapé. E para contratar mão de obra mais barata, eles chamaram profissionais de fora de São Paulo. Aí veio a questão: “onde vão dormir?”. Sabe como resolveram isso? Simples: na Akademia mesmo! É isso que você leu. Arranjaram colchões para os pedreiros dormirem na sala de yoga/boxe/funcional/qualquer outra aula. Um dia, um amigo corria na esteira e passou um pedreiro comendo seu café da manhã: um gorduroso pão com mortadela e um cafézinho.<br /></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>Na Akademia tem duas meninas que, de tão diferentes, ninguém jura que são irmãs. A mais nova é a vereadora do lugar, nunca fez aula de nada, mas conhece todo mundo e, consequentemente, está em todas as comemorações. Desde a confraternização da Zumba até a festa de fim de ano dos funcionários. E ninguém sabe com o que ela trabalha, alguns dizem que está desempregada, outros que ela recebeu uma boa herança da avó italiana. Só se sabe que ela passa 3 horas por dia na musculação, no meio da tarde, conversando.<br /></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>A outra irmã é uma advogada bem pomposa. A cada treino está com uma roupa diferente, fora que tem um perfume só para malhar. Fez todas as aulas da Akademia, mas o negócio dela é puxar ferro, entende tudo de creatina, proteína, BCAA, ômega-3 etc. E está sempre competindo com os professores pra ver quem levanta mais peso. Inclusive, ela teve um relacionamento com o de pilates. Foi namoro &#8211; de acordo com ele &#8211; e um rolo &#8211; de acordo com ela.<br /><strong>           </strong>Aliás, é inevitável falar da Akademia sem falar dos professores. O Tiago representa o estereótipo dos instrutores: maromba, usa camisas motivacionais com o tamanho 2 vezes menor que o indicado e, não importa a hora, está sempre prestativo, com uma simpatia sem tamanho. Com as mulheres, claro. O sorriso largo some num instante quando um homem se aproxima. Ainda não sei como não lançaram uma promoção especial: mulheres, inscrevam-se na Akademia e ganhem um personal de graça.<br /><strong>           </strong>O outro professor, o Robson, tem o braço inteiro tatuado com bandas e acho que foi contratado errado, pois ele exerce mais a função de DJ do que outra coisa. Raramente ouve um aluno o chamando, mas basta 1 segundo de uma música que ele não gosta, para correr até o balcão e mudar.<br /><strong>           </strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">Apesar de diferentes, os professores da musculação têm algo em comum: esperam até sua 8° repetição pra te dizer que está fazendo errado. Isso quando olham, né?! Hoje, eu vi a Akademia lotada enquanto o Robson e o Tiago &#8211; mais o estagiário &#8211; conversavam com uma velha que caminhava na esteira.<br /><strong>           </strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">Também tem a professora de ballet, a Leila. De dia, ela dá aula para crianças; de noite, no boxe, os passos suaves dão lugar a jabs bem dados, a delicadeza com os pequenos vira fúria de Mike Tyson e o que era plié se torna promessa de nocaute. O novo objetivo dela é entrar no ringue e eu tenho pena de quem enfrentá-la.<br /><strong>           </strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">Nosso último personagem marcante é o professor de fitdance, o Michael. Ele tem 1,90 m, magrelinho e uma malemolência que ninguém acredita e de dar inveja a muita bailarina de TV. Quando ele chega, é um evento, porque de longe sente-se um perfume forte e uma voz aguda: “Mateuzinhooooo!”, antes dele ir direto dar um abraço superapertado no professor de boxe que nunca consegue fugir. E não tem uma vez que Michael não traga a mesma aluna, cujo nome é Beyoncé, para fazer aula de graça. Ninguém questiona.<br /></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>Bom, agora que vocês conhecem todas as maravilhas de um lugar que custa R$ 29,90 por mês, me deem licença, por favor, que chegou a hora da minha aula na Akademia. Só não sei se vai ter gente na porta, afinal, descobriram que a recepcionista desviou dinheiro pra colocar silicone.</span></p>
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		<title>O botão</title>
		<link>https://pedroassun.com.br/cronica/o-botao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 12:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[familia]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A curiosidade de uma criança entediada.            Na minha infância, fiz algumas viagens com meus pais e meus irmãos, e uma delas foi pra Fortaleza. Ao contrário de alguns hotéis tediosos em que fiquei em outras aventuras em família, o de Fortaleza era bem legal; com chalés em volta de uma área externa grande que ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>





<p><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 35px;">A curiosidade de uma criança entediada.</span></p>
<p><span id="more-4866"></span></p>



<p><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>Na minha <a href="https://pedroassun.com.br/cronica/reu-primario/">infância</a>, fiz algumas viagens com meus pais e meus irmãos, e uma delas foi pra Fortaleza. Ao contrário de alguns hotéis tediosos em que fiquei em outras aventuras em família, o de Fortaleza era bem legal; com chalés em volta de uma área externa grande que continha muita grama, espaço para correr, brincar e bem no meio, havia um playground imenso de madeira com 2 andares, balanços, escorregador e gangorra. Tudo que uma criança queria. Lá, tive boas aventuras com os <a href="https://pedroassun.com.br/cronica/cronica-saideira/">amigos </a>que fiz – infelizmente, nem sei mais onde estão, nem quem são hoje, mas espero que lembrem com tanto carinho quanto eu daqueles dias.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>A questão é que esse hotel ficava bem longe do resto do mundo. Então tivemos que alugar um carro pra ir à praia, restaurantes e ao mercado. Sabe como são os valores do frigobar de um hotel, né?! Só a água custa o preço de um helicóptero.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">Pois bem, na primeira ida ao mercado atrás dos melhores preços, fomos só eu e minha mãe. Ao final das compras, enquanto minha mãe passava produto a produto no caixa, eu fiquei à toa e, como toda criança <a href="https://pedroassun.com.br/cronica/diagnostico/">inquieta</a> faria, comecei a olhar em volta à procura de algo para me divertir. Não demorou muito para eu perceber que o caixa ao lado estava totalmente vazio e nele, o paraíso: uma cadeira giratória e um painel cheio de botões. Meus olhos brilharam. Era como se alguém tivesse deixado propositalmente o lugar para mim. Fui devagarzinho para não ser descoberto. Pronto. Sentei. Minhas mãos estavam tremendo de tanta ansiedade. Apertei o primeiro botão, a esteira número 1 se moveu até eu parar de pressionar. Olhei para o lado, ninguém reparou. Apertei o próximo que mexeu uma 2ª esteira. As pessoas não estavam nem aí pra mim. Em seguida, reparei num botão levemente escondido embaixo do balcão. Ele era vermelho e brilhante. O que todo mundo sabe que é um convite para ser apertado.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">E assim, eu o fiz. De repente, uma campainha alta ecoou por todo o supermercado. Pessoas sorrindo, funcionários aplaudindo e balões caindo do teto. Eu fiquei apenas olhando, assustado e paralisado.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">— Parabéns! Você é a nossa milionésima cliente! — a caixa disse pra minha mãe, e continuou — agora basta apresentar seu cartão fidelidade e prontinho: você tem direito a fazer compras de graça por um mês!<br /></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>Minha mãe sorriu sem graça, coçou a cabeça e respondeu:<br /></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>— É que eu não tenho o cartão, nem sou daqui. Inclusive, tô indo embora daqui a poucos dias.</span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">O sorriso da caixa murchou junto aos balões e ela explicou para minha mãe que nem adiantava fazer na hora, era só para quem já possuísse o cartão.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">Saímos do mercado e eu fiquei sem entender como tudo aquilo aconteceu.        “Será que tudo foi feito por mim, como um Deus controlando o destino das pessoas? Ou teria sido só um acaso muito bem coreografado?”<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">Fiquei o resto dos dias com a pulga atrás da orelha. Até que tivemos que voltar ao mercado para uma última compra antes da viagem, ou seja, minha última chance para testar minha teoria.<br /></span><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>Passei as compras inteiras mais frenético que o normal. E quando fomos pagar, novamente, um dos caixas estava vazio. Minha mãe tinha pego poucos produtos, então eu não tinha muito tempo. Nem cheguei a sentar na cadeira, fui direito para o botão vermelho, respirei fundo e aproximei minha mão calmamente. Pressionei-o por 2 segundos e soltei. Foi o bastante para eu poder ouvir o comecinho do alarme ao fundo, tão rápido que ninguém notou, ninguém aplaudiu e nenhum balão caiu. E assim, pudemos ir embora, tranquilamente, sem alarde, sem promoção, a minha mãe com as compras e eu, com meu segredo.</span></p>
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		<title>Pizza de metrô</title>
		<link>https://pedroassun.com.br/cronica/pizza-de-metro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Sep 2024 13:33:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[comida]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Se mentira fosse uma pizza, seria um brotinho?            Voltando do colégio cruzo com um menino de roupa surrada, de uns 11 anos, na saída do metrô. Ele vem falar comigo:           — E aí tio, têm uns trocados? Preciso comprar uma coisa.           — Que coisa?           Ele olha pra cima, pro canto&#8230;           — Ehhh&#8230;uma pizza. Isso, ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 35px;"><strong>Se mentira fosse uma pizza, seria um brotinho?</strong></span></p>
<p><span id="more-4614"></span></p>



<p><strong>           </strong><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;">Voltando do colégio cruzo com um menino de roupa surrada, de uns 11 anos, na saída do metrô. Ele vem falar comigo:</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— E aí tio, têm uns trocados? Preciso comprar uma coisa.<strong><br />           </strong>— Que coisa?</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>Ele olha pra cima, pro canto&#8230;</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong> — Ehhh&#8230;uma pizza. Isso, uma pizza</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Pizza? Numa terça à tarde, acho que nem vende.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Lógico que vende, na promoção ainda, ali no seu Mar&#8230;Mateu&#8230;Moacir. No seu Moacir.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— E onde fica? Sempre passo por aqui e não ouvi falar dele.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— É que ele acabou de abrir e fica ali na rua de cima, virando esquerda, depois na direita na diagonal na Ladeira da Morte.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Mas isso nem é nome de rua.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Ah, é o apelido que os skatista deram. Na real, nem sei qual o nome oficial dela não. Mas e aí, vai ajudar?</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Olha, posso ir ali no bar do outro lado da rua e pedir um pão de queijo pra você, que tal?</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Não rola, sou vegano.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Mas vegano também não come pizza.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— É ainda não sei o que significa ainda. Só sei que gente rica é vegana e eu quero ser rico também.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Bom, foi mal, mas eu não tenho trocado pra uma pizza inteira.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— É só pra inteirar, tio. Aí vou juntar com os trocado que outros moleques tem.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Mas não tô vendo nenhum outro moleque aqui – digo, enquanto olho em volta.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— É que&#8230;foram buscar a 1ª pizza. É que são muitos, aí precisamos de 2 pizzas.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— E deixaram você aqui sozinho, sei&#8230;</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— É preconceito com vegano.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Oh, você falou muita coisa, mas não me passou confiança, como vou confiar que você não vai comprar droga?</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Tá louco, quem vai trocar uma pizza por droga?</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— É, você tá certo. Tá bom vai, vou te ajudar com 2 reais que é o que eu tenho aqui.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Você tem cara de idio&#8230;digo, de rico. Vê logo 5.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>— Não, vai 2 mesmo.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>Assim que recebe a nota, o menino sai correndo pra pedir dinheiro para outra pessoa.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>Vou subindo a rua. Quando vejo descendo 7 moleques mais velhos tomando conta da calçada. Eles me cercam e o líder, num tom mais agressivo manda &#8220;aí tiozão, me vê dá 10&#8221;. Fico meio acuado, sem saber o que fazer, pensando que vou dar 10 por espontânea pressão até que ouço:</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>“Libera aí ele aí Vands, que o riquinho é firmeza.” – o primeiro menino com quem conversei, grita ao longe.</span><br /><span style="font-family: Fonte-Pedro; font-size: 30px;"><strong>           </strong>Todos abrem a roda e me deixam passar. Continuo meu caminho até que vejo, logo em seguida, um oitavo moleque carregando uma caixa de pizza e nela estava escrita: Pizza &#8220;Seu Moacir&#8221;.       </span></p>
<p> </p>
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		<title>Adriana</title>
		<link>https://pedroassun.com.br/cronica/adriana/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Aug 2024 14:21:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[desemprego]]></category>
		<category><![CDATA[corretor]]></category>
		<category><![CDATA[emprego]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No desemprego e no desespero, a gente vai atrás de qualquer oportunidade. Até as que não conhece.            — Tudo bem ser às 10h30? – perguntei por mensagem.           — Vou abrir uma exceção – ela respondeu prontamente.          E assim marquei uma entrevista com uma tal de Adriana.           Aparentemente, é uma exceção bem comum, porque tem ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><span style="font-size: 35px; font-family: fonte-pedro;"><strong>No desemprego e no desespero, a gente vai atrás de qualquer oportunidade. Até as que não conhece.</strong></span></p>
<p><span id="more-4609"></span></p>



<p><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>— Tudo bem ser às 10h30? – perguntei por mensagem.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">— Vou abrir uma exceção – ela respondeu prontamente.</span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 35px;"><br /><span style="font-size: 30px;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">          </span></span></strong>E assim marquei uma entrevista com uma tal de Adriana.</span><br /></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>Aparentemente, é uma exceção bem comum, porque tem 34 pessoas na sala. Gente de todos os tipos, vestindo desde terninhos até chinelos e boné.</span><br /><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>Enquanto eu preencho minhas informações em uma ficha, Adriana entra.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">— Oi, gente, bem-vindos, já queria dar os parabéns a todos vocês, porque foram especialmente escolhidos para uma vaga transformadora e aceitaram esse chamado que vai levar vocês ao sucesso. Vamos começar a transformação!<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">Ela mesma apaga as luzes, puxa um telão sujo da parede e vai até uma mesinha de canto em que fica um computador. De repente, o som da turbina de um avião ecoa pela sala ao mesmo tempo que a tela do Windows XP se inicia no telão. Olhando pra gente com um sorriso amarelo, Adriana dá 2 tapas na lateral do computador e o barulho para. Então ela dá play em um arquivo chamado “apresentação V6”.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">O vídeo começa com fotos genéricas e uma narração sobre a fundação da empresa. Em seguida, vem um 3D furreca de uma cidade dívida em quadrados. O narrador começa a falar sobre a importância dos corretores para o mundo globalizado &#8211; e é aí descubro pra que vaga eu tinha me inscrito &#8211; e como eles salvam tantas vidas quantos cardiologistas. Admito que uma parte de mim estava curioso pra ver onde isso ia dar.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2"> </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">          </span></span></strong>Por último, e menos importante, veio a parte dos depoimentos em que vi, “engenheiros”, “médicos”, “advogados” e até “donos de empresa” falando que mudaram sua vida se tornando corretores. Nessa hora, ouço clássicos dos coaches como: “a vontade é o combustível do ser humano”, “o poder da transformação interna” e “diga sim para as ofertas do universo.”<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">          </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">Já passaram 30 min – e nenhuma informação clara sobre a vaga &#8211; quando a apresentação finalmente acaba com uma música de baladinha topzera. É no ritmo dessa música que Adriana surge do cantinho do computador dançando e anuncia “e agora, nosso fundador: Rogério Winner!”. Um homem gordinho, com algo que parecia uma peruca na cabeça, vestindo blazer jeans e sapa tênis entra na sala dançando e intercalando gritos de “Transformação!” com “uh, uh” animados de nossa querida Adriana; que agora está acedendo e apagando as luzes rapidamente no interruptor para fazer um efeito de balada. No lugar da apresentação, entra um fundo vermelho do logo da empresa que rouba toda a atenção de Rogério, mesmo assim, ele se apresenta e começa seu discurso:<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">— Opa, muito obrigado, muito obrigado. Vamos finalmente ao que interessa&#8230;<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">“É agora que vão falar da vaga” – pensei.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">— &#8230;as energias negativas. Hoje em dia, as pessoas carregam muitas energias negativas e elas passam pra você, principalmente, quando você aceita uma oportunidade dessas que estamos te oferecendo.  Por aí, já vi e ouvi muita gente que fecha a porta quando a oportunidade bate. Isso é <em>Bad energy</em>, galera. Vocês têm que fugir disso e dessas pessoas, porque foi numa oportunidade dessas que minha vida se transformou. Até outro dia, eu estava no lugar de vocês, como um corretor, e hoje eu tenho 2 filhos, um de 15 e outro de 18 e os 2 estão em Nova York, estudando – minha mente comenta com si mesma: “devem estar com a mãe”. E hoje, quando vocês chegarem em casa – ele continua – a primeira coisa que suas esposas, filhos, namoradas vão perguntar &#8220;E aí, como foi a entrevista?&#8221;.  E ao invés de vocês responderem &#8220;ah, foi legal&#8221;, vocês vão responder: “foi transformador!” – Adriana respondeu com um “uh, uh”.  E já da pra ver no olhar de vocês quem vai ficar aqui e quem vai perder a glória.<br /></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong>Todos se olham sem entender nada.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">Para terminar, ele explica um método “inovador” que ele inventou para revolucionar o mercado imobiliário, mas como sou amigo de quem lê meus textos, vou te poupar disso. E assim, Rogério Winner se despede ao som da música da balada e dos aplausos – de você sabe quem – que diz &#8220;pode bater palma, gente&#8221;. Obedecemos sem muita animação.</span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">                Nossa guerreira Adriana fica na frente de todos novamente:<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">— Acho que deu pra entender tudo que podemos oferecer para vocês atingirem o máximo potencial na sua carreira. Então, vamos lá – ela abre um slide com as descrições da vaga – aqui você podem ver que trabalhamos com comissões, que são muito altas, você faz o seu horário, do seu jeito, agenda as reuniões na hora que você quiser e se administra como preferir. Nada melhor que isso, não?!<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">Depois de 1h sem uma brecha para ir ao banheiro, levantar-se ou pelo menos, ouvir algo que me agrade, Adriana me dá uma alforria:<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">— Então, já aviso, se você quer e gosta de um emprego tradicional, CLT, com benefícios, bater cartão e nenhum chance de crescimento. Pode sair, sem nenhum problema.<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">Junto com 15 caboclos, me levanto e Adriana acaba olhando nos meus olhos. Com toda a pena que senti daquela mulher, só consegui dizer uma coisa:<br /><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">           </span></span></strong></span><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;">— Desculpa, é uma transformação muito grande pra mim e, além do mais, eu também estou com fome.</span></p>
<p><span style="font-size: 30px; font-family: fonte-pedro;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2"> </span></span></strong></span></p>
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		<title>Diagnóstico</title>
		<link>https://pedroassun.com.br/cronica/diagnostico/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jul 2024 16:37:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[tdah]]></category>
		<category><![CDATA[consulta]]></category>
		<category><![CDATA[medico]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um olhar mais atento&#8230; “ao que mesmo?!”             — Pedro Assunção.            Eu me levanto da cadeira da sala de espera e o sigo em direção ao consultório. O Doutor abre e porta pra mim e nos sentamos à mesa.            — O que está havendo? &#8211; ele pergunta.            — Então Doutor, tô com um problema no ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 35px;"><strong>Um olhar mais atento&#8230; “ao que mesmo?!”</strong></span></p>
<p><span id="more-4603"></span></p>



<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><strong><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— </strong>Pedro Assunção.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>Eu me levanto da cadeira da sala de espera e o sigo em direção ao consultório. O Doutor abre e porta pra mim e nos sentamos à mesa.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— O que está havendo? &#8211; ele pergunta.<br /><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Então Doutor, tô com um problema no joelho.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Faz quanto tempo?<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Um mês, por aí.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— E você faz algum exercício físico?<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Boxe e natação.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>“Pera. Por que ele só está olhando pra baixo? Que estranho. Será algo caiu? Será que quer ver meu joelho mais de perto? Mas eu tô de calça, nem dá pra analisar ainda. Será que tem algo de errado comigo? Bom, eu almocei, escovei os dentes&#8230;e o desodorante?” Dou uma fungada rápida e vejo que o desodorante está em dia.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Pedro?<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Oi? Desculpe, me distrai – respondo enquanto balanço a cabeça para acordar.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Sofreu algum impacto forte?<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Pior que não. Às vezes rola um treino físico que pega mais pesado. Posso ter me machucado num desses.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Vamos até ali – e apontou até a maca.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Eu me deito, o Doutor vai mexendo no meu joelho de diferentes jeitos enquanto o aperta.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Está doendo aqui?<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Não.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>“Será que ele é tímido? Tudo bem se for, mas, pô, tô aqui faz um tempo e ele tá tocando no meu joelho. Isso aí é já intimidade médico-paciente. Se ele estivesse tocando sem meu consentimento seria assédio, mas eu consenti; então tá tudo bem. Se eu desenhar uma carinha no meu joelho será que ele vai parar de olhar pra ele também?”<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— E aqui? – o Doutor continua.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Também não – respondo já no automático.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>Ele continua mexendo no joelho.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>“Vai que ele é um japonês ultraconservador e fechado. Mas porra, nos tempos dos samurais, não olhar o inimigo era uma falta de educação séria. E a gente nem é inimigo. Que eu saiba, né?! Tudo bem que gente branca como eu é inimigo de muita gente, mas eu não tenho dívida histórica com os japoneses. Aposto que até os doutores vesgos olham para os pacientes&#8230;”<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Ai&#8230;.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>Ele toca de novo.<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— Ai&#8230; é esse o ponto – eu falo e nada dele me olhar.<br /><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>Voltamos à mesa e ele continua:<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>— O diagnóstico é o seguinte&#8230;<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>“Parando pra pensar, pode ser o problema dele também. Será que é uma ex-namorada. Se bem que, pela aliança, ele é casado. Pode ter brigado com ela. Ouuu ela pode ter brigado com ele. Ele pode ser bem mal caráter e ter traído a coitada da japonesinha. Mas porque uma japonesa?! Agora eu que sendo conservador&#8230;”<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><span class="TextRun SCXW183424856 BCX2" lang="PT-BR" xml:lang="PT-BR" data-contrast="none"><span class="NormalTextRun SCXW183424856 BCX2">            </span></span>Ele abre a porta do consultório, me despeço, desço de elevador, quando chego na rua, paro 1 segundo e penso: “o que ele disse mesmo?”</span></p>
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		<title>Voxinha</title>
		<link>https://pedroassun.com.br/cronica/voxinha/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Mar 2024 17:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[namorados]]></category>
		<category><![CDATA[vozinha]]></category>
		<category><![CDATA[consulta]]></category>
		<category><![CDATA[medico]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um consulta que deu o que falar.                 Um homem entra no consultório da médica:                 — Ancelmo, né?! &#8211; A doutora o cumprimenta.                 — Isso, Anxelmo.                 — Desculpe, Anxelmo.                 — Mas é Anxelmo.                 — Foi o que eu disse.                 — Não, não, você não entendeu, meu nome é Anxelmo.                 — Sim, na primeira vez eu ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 35px;">Um consulta que deu o que falar.</span></p>
<p><span style="font-family: fonte-pedro;"><span id="more-4257"></span></span></p>



<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Um homem entra no consultório da médica: </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Ancelmo, né?! &#8211; A doutora o cumprimenta. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Isso, Anxelmo. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Desculpe, Anxelmo. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Mas é Anxelmo. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Foi o que eu disse. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Não, não, você não entendeu, meu nome é Anxelmo. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Sim, na primeira vez eu errei mesmo, peço desculpas. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Mas meu nome é Anxelmo com X mesmo. Olha na fixinha. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Ahh, Ancelmo. Então eu acertei! </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Isso! Anxelmo! </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Você tá me confundindo, Anxelmo. Qual seu problema afinal?! – a doutora responde num tom impaciente. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — É a minha voxinha, Doutorazinhainha. Não tá normalxinha. Parece uma mistura de Urxinhos carinhoxos com My Little Pony – Ancelmo/Anxelmo aponta para a garganta. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Ah, achei que você era carente mesmo, tipo meu ex que tinha grupo de zap com amigos imaginários  – ela para um segundo para sentir um calafrio – Deixa eu ver sua garganta. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Ela o examina. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Diga: “Aaaaaa” </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Awnnnn </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                —Diga: “Amor” </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Amorzinhoinho </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Ela termina o exame e fala: </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Parece que temos um caso de vozinha fofa. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — É grave doura? </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                 — Me diz, Ancelmo, você é casado, namora&#8230;? </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Simzinho com meu amorzinho da vida tudinha: Letucha, </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — É essa é a vozinha que você faz com ela, né?! </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Xim,xim. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Então aí que tá o problema. Você não consegue mais parar com a vozinha. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Há quanto tempo estão juntos? </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Ele mostra 3 dedos pra ela. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Há 3 mesexinhos. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Esse sintoma é bem comum nesse começo de namoro.. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Nossa que bom – ele abre um sorriso </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — &#8230;com adolescentes. Mas com o tempo o cansaço, descobre que a pessoa ronca e você não dorme há 4 dias, você começa a fazer cocô de porta aberta porque nem se importa mais&#8230;enfim, você se dá conta da breguice e some. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Ela pega uma folha de papel e começa a anotar com uma letra de qualidade suspeita. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Em todo caso, vou recomentar para você 3 filmes de The Rock, mas se tiver causando muito incomodo, pode ser qualquer velozes e furiosos. A partir do 5 funciona mais. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Muito obrigadinho – ele se despede. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"> </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                                                   *             *             *</span></p>
<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">              Meses mais tarde, Alcemo ressurge no consultório. </span></p>
<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — Douturuxa, adotei um caxurrinho&#8230;</span></p>
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		<title>The Haters</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Feb 2024 11:58:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>depois que me conheceu, essa banda se uniu ainda mais e foi pela pior razão. &#160;                 Da plateia, vejo o mestre de cerimônias pegando o microfone:                — E agora nossa próxima atração. Na bateria: Giovana! – diz ele animado.                A fumaça de expectativa sobe no palco, então entra uma moça cujo sorriso é perfeito ...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><span style="font-size: 32px;"><span style="font-family: fonte-pedro;">depois que me conheceu, </span><span style="font-family: fonte-pedro;">essa banda se uniu ainda mais </span><span style="font-family: fonte-pedro;">e foi pela pior razão.</span></span></p>
<p><span id="more-4156"></span></p>
<p>&nbsp;</p>



<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Da plateia, vejo o mestre de <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="d9FyLd">cerimônia</span></span>s pegando o microfone:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — E agora nossa próxima atração. Na bateria: Giovana! – diz ele animado.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                A fumaça de expectativa sobe no palco, então entra uma moça cujo sorriso é perfeito e tão brilhante quanto seu cabelo loiro e se senta na bateria. Ela faz seu solo de apresentação, 10 gato pingado vibram enquanto eu lembro de como a conheci.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Num dia, minha amiga Má me convidou pra ir num bar pós-ensaio de quem ela chamou de “a banda mais legal de todas”. Fui me sentar bem do ladinho de Giovana. No começo do papo, já descobri que ela era dentista, então pensei: “Que sorte! Posso unir o útil, a minha curiosidade, ao agradável, me tornar próximo dessa menina tão especial para minha amiga.” Comecei o papo:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Que legal que você é dentista. Me deixou de boca aberta — nenhuma reação dela, nem mesmo um fio de cabelo.  Mas eu tinha que manter a confiança. — Você consegue decorar a boca de todo mundo?</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Sim.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — De todo mudo mesmo?</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Sim. A gente gosta tanto do que faz que acaba decorando sem saber.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — E&#8230; já viu algum pentelho enquanto fazia limpeza?</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Às vezes acontece, viu?! – Giovana abriu um sorrisinho tímido. – Uma vez, fiz a limpeza em boca que tinha 2 pelos pubianos diferentes. Foi durante o Carnaval. Então o moço aprontou bastante.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Os dois sorrimos e eu continuei.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Que engraçado! Igual quando o povo diz que dentista não é médico.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Mas é médico.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Isso que tô dizendo – engoli seco.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Não, não, você disse que não é médico.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Eu disse que o <strong>povo diz </strong>que não é médico, eu não sou uma dessas pessoas.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Pois parece e tá ofendendo minha família.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Sua família?</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Sim senhor, minha família inteira é de dentistas, ou melhor, cirurgiões dentistas – ela disse enquanto mudou de lugar e virou de costas pra mim.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Eu só disse que&#8230; – desisti da frase quando percebi todos olhando feio pra mim.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">*             *             *</span></p>
<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                De volta ao show, o mestre de <span class="ILfuVd" lang="pt"><span class="d9FyLd">cerimônia</span></span>s anuncia:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">               — E vem aí, no baixo: Jaque!</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Jaque, uma moça de cabelo azul, toda trabalhada no couro, nos piercings e na pose de roqueira anda até o baixo para seu solo acompanhado da bateria. Lembro também quando a conheci: foi no aniversário da Má que, para todos os efeitos, havia me contato antes sobre a Jaque: “uma menina super de boa, engraçada, leve e que vai gostar de você”. Cheguei no Bar Ricochete, peguei um drink e logo achei a Jaque. Dessa vez, eu tinha estudado e tinha um papo pra começar a conversa:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Hey, a Má me falou que você gosta de Punk rock.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Nossa! Demais Eu curto muito: Blink, Sum 41, Bring Me the Horizon&#8230; </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Viu que o Green Day lançou novo álbum?!</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Vi sim, adorei a Kill the DJ.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Minha favorita também – eu menti, mas eu precisava</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Depois de uns 10 minutos de papo frouxo. Ela até me acalmou:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Fica de boa quanto a Gi. Minha irmã é um pouco sensível quanto a esse negócio de dentista.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Ufa. Bom que uma irmã ainda gosta de mim. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Você é legal, sim, não se preocupa – e sorriu.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — Mas me diz, seu namorado aceitou abrir o relacionamento?</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                — É o que? – de repente um homem, atrás dela, grita indignado – é o que Jaqueline Saraiva? Abrir nosso relacionamento?</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Ih, olha seu namorado aí! Beleza, cara? – Ele me ignorou, focou só ela que, após tomar um gole da cerveja, instantaneamente, mudou a cara de &#8221; Welcome to paradise&#8221; para &#8220;21 guns&#8221;.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Não, amor, eu ia te cont&#8230;</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Quando? Antes de contar pra todo mundo? Até um cara que eu nem conheço sabe disso.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Parece que vocês têm muito o que conversar, não é! A gente vê, Jaque – E saí de fininho, mas não sem antes de ser fuzilado por um rápido olhar de Jaque.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">*             *             *</span></p>
<p><span style="font-size: 30px;"><span style="font-family: fonte-pedro;">                Agora o mestre de cerimônias chama a última integrante: a vocalista e guitarrista. Má entra no palco com sua pele desenhada com segredos de vida, um look que mistura presença com tons de amarelo, sua cor favorita, e cabelo de fogo. Eu a reconheço facilmente. Afinal, faz 15 anos que somos melhores amigos e, por isso, já presenciamos muitas fases de vida &#8211; e de cabelo &#8211; um do outro. E é por ela que vim hoje nesse festival de bandas independentes.<br />                Minutos antes fui cumprimentá-la. Por razões inimagináveis, o resto da banda não quis saber de mim. Então conversamos só nós:<br /></span><span style="font-family: fonte-pedro;">                – Nossa, o público tá pouco ainda &#8211; eu disse.</span></span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Eles vão chegar.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Será? O show tá prestes a começar.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Vai chegar mais gente, você vai ver. Tenho certeza.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Para melhorar o clima, resolvi fazer uma piada:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – Ah, mas quem ia ver uma bandinha dessas. Ainda mais nesse no fim do mundo, ninguém liga, né?!</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Eu ri. Má não riu e saiu assim que ouviu o mestre de cerimônias. Este por sua vez finalmente anuncia:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – E com vocês&#8230;.</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                Eu, sozinho, no meio da plateia, completo:</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                – a banda que me odeia</span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">                O show começa.</span></p>
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		<title>Estacionamentrô</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Feb 2024 12:54:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[metro]]></category>
		<category><![CDATA[cronica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Próxima estação: o sub sub-mundo.      Não sei se você lembra, mas na adolescência, somo presenteados com um combo de humilhação: problemas de pele, hormônios no talo, falta de habilidade social e pra dar um toque final, um aparelho.     De um lado, a natureza em forma de dente crescendo com sua imperfeição e de outro, ...</p>
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<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 35px;"><b><span style="font-size: 32px;">Próxima estação: o sub sub-mundo.</span></b></span></p>
<p><span id="more-4144"></span></p>



<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     Não sei se você lembra, mas na adolescência, somo presenteados com um combo de humilhação: problemas de pele, hormônios no talo, falta de habilidade social e pra dar um toque final, um aparelho.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">De um lado, a natureza em forma de dente crescendo com sua imperfeição e de outro, a tecnologia da raça humana colocando tudo sobre controle. E, no meu caso, a comandante superiora do lado da humidade era Dra. Marta, uma mulher ala napoleão: baixinha, raivosa e que parecia gostar muito de religião, pois da sua boca saia: &#8220;nossa Senhora da ortodontia&#8221;, &#8220;Meu Jesus de siso&#8221;, toda vez que eu mostrava meu campo de batalha – ela até comprou uma broca de furar asfalto só minhas visitas. Uma fofa.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Até então, eu costumava ir e voltar do consultório pelo melhor meio de transporte do mundo: caronas de mamãe. <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Mas nesta quinta-feira tudo muda quando os deuses do céu – da boca – fazem a podóloga de minha mãe coincidir com a minha visita ao consultório. Só me resta voltar do jeito que minha mãe instruiu: “toma um taxi na frente do consultório e vai até a estação Ana Rosa, a última da linha azul. Lá, pega a linha verde no sentido Vila Madalena. Não tem baldeação. Só tem um caminho possível! Entendeu?”. Respondo: “entendi!”. Não sei o porquê, mas ela se mostra desconfiada: &#8220;mesmo?&#8221;. Respondi com firmeza &#8220;Não tem como dar errado.&#8221;<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Depois de fazer Dra. Marta repensar muito sua carreira transformando o arame do meu aparelho em arame farpado, vejo que só tem um taxista do ponto. Falo com ele, mas ele diz que não. Argumento que é rápido. “Não”. Falo que era perto. “Não” de novo. Até tento suborná-lo com duas balinhas de melancia, e aí ele me manda pegar um taxi na rua porque estava esperando cliente – mais tarde, descobri que ele que pegaria daria carona pra uma uma garota de programa e ele seria o cliente.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Apesar de ser fácil para um cara branco pegar um taxi avulso – já pedi um pra atravessar a rua e o cara aceitou – ainda não existe waze, então, me resta aceitar o caminho superconfiável do motorista que cruza ruas pequenas e isoladas com um papo agradável: &#8220;bom, uma vez sequestraram alguém ali, sabe?!&#8230;Sabia que tem muito taxista que não é de confiança&#8230; Pra sumir é assim&#8230;um&#8230;dois&#8230;&#8221;.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Não dá tempo pra pensar muito sobre o assunto, uma vez que estou bem atrasado para um ver um episódio novinho em folha de Dragon Ball Z. Assim que desço do taxi, corro para a estação, passo o bilhete único mais correndo ainda e sorrio quando vejo vagão vazio com as portas se fechando. Entro no último segundo.  Da plataforma, vejo uma mulher apontando para mim, mas o sinal de partida do vagão a impede de ouvi-la. </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><br />     Quando o vagão para e percebo um lugar totalmente escuro, silencioso e sem sinal de celular, só um pensamento cruza minha cabeça: &#8220;é hoje que aperto o botão de emergência&#8221;. Dou um soco lateral no plástico que protege o virgem e brilhante botão vermelho e o aperto. As portas se abrem fazendo eco. Guardo o plástico no bolso e saio. Como minha única opção do que fazer acaba, só me resta olhar onde estou.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Posso ver as lâmpadas velhas balançando no teto, rangendo baixinho como unhas na lousa. Parece que conversam umas com as outras. Aos meus pés, uma plataforma cumprida e curta, onde esticando meus braços, encosto nos dois metrôs ao mesmo tempo. Olho pra frente e percebo: estou sozinho no estacionamento do metrô.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Mas, quando paro pra pensar, há uma pessoa que também deveria estar naquele lugar, o maquinista. Decido ir atrás dele seguindo pelos vagões.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Naquele lugar, onde os olhos e nem a luz do sol alcançam, as coisas são sinistras e percebo isso em cada vagão que cruzo. Tinha o dos funcionários crossfiteiros, o vagão da banda do metrô, um só pra rappers de vagões e até um só pra aquelas pessoas perfeitas que você apaixona nas estações.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Chego no fim do caminho e há uma porta vermelha. Giro a maçaneta devagar. Ouço um &#8220;tec&#8221; que marca que a porta está destrancada. Termino de gira-la e me vejo em um espaço enorme. Meu chão se multiplicou em 4, ainda pequenos, e agora, vejo vagões acabados, pichados e com centenas de pombos em cima deles. &#8220;o cemitério de vagões&#8221; – falo pra mim mesmo. <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">De repente, toca no meu ombro um cara grande, com uniforme azul e o crachá escrito &#8220;operadora de trem&#8221;. Ao contrário de ruas roupas perfeitamente arrumadas, seus pensamentos estão bagunçados.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Assim&#8230;.como&#8230;você&#8230;aqui? – ele me diz. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     – Eu me perdi. Tava com pressa pra ver Dragon Ball Z – respondo sem pretensão.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Você tem que vir comigo! &#8211; e me guia pelo caminho que vim.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Reparo que as pessoas que cruzei estão nos mesmos lugares só que com algo diferente. Ao invés de serem crossfiteiros, músicos e gente bonita, são faxineiros de uniformes limpando vagões.<br />     – Mas aqui não havia&#8230; </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     – Não há nada garoto, só funcionários me metrô – ele me interrompe com uma voz estranha e logo muda de assunto – Você disse Dragon Ball Z? </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     – Uhum &#8211; Com a cabeça fiz que sim. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     –  Já reparou como o nome do episódio é um spoiler do próprio episódio? Não perca o próximo episódio &#8220;Goku vira Super Saiyajin 3&#8221; ou então &#8220;Namekuzei explode&#8221;. <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">–  &#8220;Goku Morre!&#8221;  <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Exatamente! – ele se animou.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Isso poderia servir pra nossa vida. &#8220;Você vai ter um dia ruim, um dia bom&#8221;<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– E já tem! No horóscopo – paramos de andar – chegamos!<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Estamos no primeiro vagão, na cabine. Nela, o maquinista me oferece um copo d’água, me apresenta tudo inclusive seu companheiro metrôzinho de pelúcia, e pergunta pra onde vou. &#8220;Vila Madalena&#8221;, eu respondo. Ele se fecha na cabine pra me levar até lá, mas antes diz: &#8220;senta aí que o caminho não tem erro&#8221; Pois é motorista, é o que achei da primeira vez.  E me despeço da aventura.  </span></p>
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