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	<title>Arquivos metro - Pedro Assun</title>
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	<description>Redator - Roteirista - Escritor</description>
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		<title>Estacionamentrô</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Pedro Assun]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Feb 2024 12:54:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Próxima estação: o sub sub-mundo.      Não sei se você lembra, mas na adolescência, somo presenteados com um combo de humilhação: problemas de pele, hormônios no talo, falta de habilidade social e pra dar um toque final, um aparelho.     De um lado, a natureza em forma de dente crescendo com sua imperfeição e de outro, ...</p>
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<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 35px;"><b><span style="font-size: 32px;">Próxima estação: o sub sub-mundo.</span></b></span></p>
<p><span id="more-4144"></span></p>



<p><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     Não sei se você lembra, mas na adolescência, somo presenteados com um combo de humilhação: problemas de pele, hormônios no talo, falta de habilidade social e pra dar um toque final, um aparelho.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">De um lado, a natureza em forma de dente crescendo com sua imperfeição e de outro, a tecnologia da raça humana colocando tudo sobre controle. E, no meu caso, a comandante superiora do lado da humidade era Dra. Marta, uma mulher ala napoleão: baixinha, raivosa e que parecia gostar muito de religião, pois da sua boca saia: &#8220;nossa Senhora da ortodontia&#8221;, &#8220;Meu Jesus de siso&#8221;, toda vez que eu mostrava meu campo de batalha – ela até comprou uma broca de furar asfalto só minhas visitas. Uma fofa.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Até então, eu costumava ir e voltar do consultório pelo melhor meio de transporte do mundo: caronas de mamãe. <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Mas nesta quinta-feira tudo muda quando os deuses do céu – da boca – fazem a podóloga de minha mãe coincidir com a minha visita ao consultório. Só me resta voltar do jeito que minha mãe instruiu: “toma um taxi na frente do consultório e vai até a estação Ana Rosa, a última da linha azul. Lá, pega a linha verde no sentido Vila Madalena. Não tem baldeação. Só tem um caminho possível! Entendeu?”. Respondo: “entendi!”. Não sei o porquê, mas ela se mostra desconfiada: &#8220;mesmo?&#8221;. Respondi com firmeza &#8220;Não tem como dar errado.&#8221;<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Depois de fazer Dra. Marta repensar muito sua carreira transformando o arame do meu aparelho em arame farpado, vejo que só tem um taxista do ponto. Falo com ele, mas ele diz que não. Argumento que é rápido. “Não”. Falo que era perto. “Não” de novo. Até tento suborná-lo com duas balinhas de melancia, e aí ele me manda pegar um taxi na rua porque estava esperando cliente – mais tarde, descobri que ele que pegaria daria carona pra uma uma garota de programa e ele seria o cliente.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Apesar de ser fácil para um cara branco pegar um taxi avulso – já pedi um pra atravessar a rua e o cara aceitou – ainda não existe waze, então, me resta aceitar o caminho superconfiável do motorista que cruza ruas pequenas e isoladas com um papo agradável: &#8220;bom, uma vez sequestraram alguém ali, sabe?!&#8230;Sabia que tem muito taxista que não é de confiança&#8230; Pra sumir é assim&#8230;um&#8230;dois&#8230;&#8221;.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Não dá tempo pra pensar muito sobre o assunto, uma vez que estou bem atrasado para um ver um episódio novinho em folha de Dragon Ball Z. Assim que desço do taxi, corro para a estação, passo o bilhete único mais correndo ainda e sorrio quando vejo vagão vazio com as portas se fechando. Entro no último segundo.  Da plataforma, vejo uma mulher apontando para mim, mas o sinal de partida do vagão a impede de ouvi-la. </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;"><br />     Quando o vagão para e percebo um lugar totalmente escuro, silencioso e sem sinal de celular, só um pensamento cruza minha cabeça: &#8220;é hoje que aperto o botão de emergência&#8221;. Dou um soco lateral no plástico que protege o virgem e brilhante botão vermelho e o aperto. As portas se abrem fazendo eco. Guardo o plástico no bolso e saio. Como minha única opção do que fazer acaba, só me resta olhar onde estou.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Posso ver as lâmpadas velhas balançando no teto, rangendo baixinho como unhas na lousa. Parece que conversam umas com as outras. Aos meus pés, uma plataforma cumprida e curta, onde esticando meus braços, encosto nos dois metrôs ao mesmo tempo. Olho pra frente e percebo: estou sozinho no estacionamento do metrô.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Mas, quando paro pra pensar, há uma pessoa que também deveria estar naquele lugar, o maquinista. Decido ir atrás dele seguindo pelos vagões.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Naquele lugar, onde os olhos e nem a luz do sol alcançam, as coisas são sinistras e percebo isso em cada vagão que cruzo. Tinha o dos funcionários crossfiteiros, o vagão da banda do metrô, um só pra rappers de vagões e até um só pra aquelas pessoas perfeitas que você apaixona nas estações.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Chego no fim do caminho e há uma porta vermelha. Giro a maçaneta devagar. Ouço um &#8220;tec&#8221; que marca que a porta está destrancada. Termino de gira-la e me vejo em um espaço enorme. Meu chão se multiplicou em 4, ainda pequenos, e agora, vejo vagões acabados, pichados e com centenas de pombos em cima deles. &#8220;o cemitério de vagões&#8221; – falo pra mim mesmo. <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">De repente, toca no meu ombro um cara grande, com uniforme azul e o crachá escrito &#8220;operadora de trem&#8221;. Ao contrário de ruas roupas perfeitamente arrumadas, seus pensamentos estão bagunçados.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Assim&#8230;.como&#8230;você&#8230;aqui? – ele me diz. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     – Eu me perdi. Tava com pressa pra ver Dragon Ball Z – respondo sem pretensão.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Você tem que vir comigo! &#8211; e me guia pelo caminho que vim.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Reparo que as pessoas que cruzei estão nos mesmos lugares só que com algo diferente. Ao invés de serem crossfiteiros, músicos e gente bonita, são faxineiros de uniformes limpando vagões.<br />     – Mas aqui não havia&#8230; </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     – Não há nada garoto, só funcionários me metrô – ele me interrompe com uma voz estranha e logo muda de assunto – Você disse Dragon Ball Z? </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     – Uhum &#8211; Com a cabeça fiz que sim. </span><br /><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">     –  Já reparou como o nome do episódio é um spoiler do próprio episódio? Não perca o próximo episódio &#8220;Goku vira Super Saiyajin 3&#8221; ou então &#8220;Namekuzei explode&#8221;. <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">–  &#8220;Goku Morre!&#8221;  <br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Exatamente! – ele se animou.<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– Isso poderia servir pra nossa vida. &#8220;Você vai ter um dia ruim, um dia bom&#8221;<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">– E já tem! No horóscopo – paramos de andar – chegamos!<br />     </span><span style="font-family: fonte-pedro; font-size: 30px;">Estamos no primeiro vagão, na cabine. Nela, o maquinista me oferece um copo d’água, me apresenta tudo inclusive seu companheiro metrôzinho de pelúcia, e pergunta pra onde vou. &#8220;Vila Madalena&#8221;, eu respondo. Ele se fecha na cabine pra me levar até lá, mas antes diz: &#8220;senta aí que o caminho não tem erro&#8221; Pois é motorista, é o que achei da primeira vez.  E me despeço da aventura.  </span></p>
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