Assalto n°1

Roubar não vale nada.

          Um dos personagens que entrou por acaso na minha vida foi o Zezão. Ele é filho dos anos 80 e era parte da turma mais velha da rua, que cresceu e foi cada um para um canto. Sozinho e abandonado, acabou fazendo amizade com os irmãos mais novos da turma mais velha, ou seja, eu e meus amigos.
           2006, Zezão, medindo 1,78 m, está no auge da sua vida com seu físico trincado e a moda “Velozes e Furiosos 1” – estilo que ele nunca abandonou – em alta. Ele anda por aí desfilando seus Nike Shox e com músculos e mamilos à mostra, graças à sua regata fininha.
           Se você bem se lembra, esse também é ano de Copa do Mundo – a da Alemanha –, única época que, de alguma forma, me envolvo com futebol, tanto que compro o famoso “álbum de figurinhas da Copa”.       
           
Nesse dia, depois de passarmos horas ajudando a mãe dele na arrumação de suas festas chiques, eu e Zezão seguimos para minha casa, pois, mais tarde, iríamos encontrar o resto da turma. No caminho, paramos numa banca de jornal para comprar alguns pacotinhos. Eles não custam muito, então uso meu dinheiro contado para adquirir 4 pacotinhos com 5 figurinhas cada. Não aguento esperar e abro ali mesmo na frente do vendedor. Olho uma por uma, alternando entre a decepção das repetidas e o entusiasmo das inéditas. Coloco todas no bolso do shorts e continuamos para o metrô.
           Desembarcamos na estação mais próxima da minha casa por volta das 11 da noite. Não ficava longe, mas, por causa do horário, viro para o Zezão e digo:
           — Vou ligar pra minha mãe buscar a gente (de carro).
           — Não precisa. Vamos a pé rapidinho. – Ele responde despreocupado.
           “Bom, tá bom, com um amigo desse ninguém vai se meter com a gente?!” – penso comigo mesmo.
           Cruzamos algumas ruas praticamente vazias. Somente um casal de homens com seus cachorros passa por nós. Até que chegamos ao muro que dava na minha casa, um trecho sempre à meia-luz, graças às árvores que filtram a iluminação do poste. Um homem curvado vem na direção contrária; pra gente, mais uma pessoa que passaria direto, mas não: ele se aproxima, pergunta a hora e, antes de respondermos, nos aponta uma arma. Num instante, Zezão corre. Eu e o assaltante ficamos imóveis, desacreditados, observando a cena por alguns segundos. Então o criminoso olha para o lado e me encontra ali, encostado no muro com as mãos levantadas, e faz uma cara de surpresa como quem lembrasse: “Ah, sobrou outro!”.
Ele exige meu celular.
           — Não tenho. – Minto na cara dura.
           — Passa o dinheiro! – Sua mão e a arma tremem enquanto fala comigo. Um tremor a mais e o gatilho pode ser disparado.
           Coloco a mão no bolso procurando minha carteira e, sem querer, tiro as figurinhas. Ele as arranca da minha mão, sente que não é dinheiro e joga no chão.

           — Cadê o dinheiro? – Ele está mais ansioso.
           Encontro a carteira no outro bolso, abro-a para tirar as notas, mas, novamente, o assaltante puxa tudo de mim.
           — Pô, pelo menos deixa os documentos.  – Eu falo enquanto ele abre cada compartimento da carteira. 
           O assaltante não responde, pega algo, descarta o resto e some na escuridão.
           Respiro aliviado e começo a resgatar minha carteira e as figurinhas do chão, uma a uma, até que percebo uma nota de 1 real entre elas. No mesmo segundo, me vem uma lembrança de que eu só tinha 2 reais na carteira, ou seja, fui roubado sim, mas só me levaram 1 real.

            Meu próximo passo é encontrar meu “corajoso” amigo. Sigo em direção ao sentido que ele correu e o vejo andando tranquilamente com o casal de homens. Ele se vira, olha pra mim e diz:
           — Ué?! Por que você não correu também? 
           É, meus amigos, algumas amizades valem menos que 1 real.