O botão

A curiosidade de uma criança entediada.

           Na minha infância, fiz algumas viagens com meus pais e meus irmãos, e uma delas foi pra Fortaleza. Ao contrário de alguns hotéis tediosos em que fiquei em outras aventuras em família, o de Fortaleza era bem legal; com chalés em volta de uma área externa grande que continha muita grama, espaço para correr, brincar e bem no meio, havia um playground imenso de madeira com 2 andares, balanços, escorregador e gangorra. Tudo que uma criança queria. Lá, tive boas aventuras com os amigos que fiz – infelizmente, nem sei mais onde estão, nem quem são hoje, mas espero que lembrem com tanto carinho quanto eu daqueles dias.
           A questão é que esse hotel ficava bem longe do resto do mundo. Então tivemos que alugar um carro pra ir à praia, restaurantes e ao mercado. Sabe como são os valores do frigobar de um hotel, né?! Só a água custa o preço de um helicóptero.
          
Pois bem, na primeira ida ao mercado atrás dos melhores preços, fomos só eu e minha mãe. Ao final das compras, enquanto minha mãe passava produto a produto no caixa, eu fiquei à toa e, como toda criança inquieta faria, comecei a olhar em volta à procura de algo para me divertir. Não demorou muito para eu perceber que o caixa ao lado estava totalmente vazio e nele, o paraíso: uma cadeira giratória e um painel cheio de botões. Meus olhos brilharam. Era como se alguém tivesse deixado propositalmente o lugar para mim. Fui devagarzinho para não ser descoberto. Pronto. Sentei. Minhas mãos estavam tremendo de tanta ansiedade. Apertei o primeiro botão, a esteira número 1 se moveu até eu parar de pressionar. Olhei para o lado, ninguém reparou. Apertei o próximo que mexeu uma 2ª esteira. As pessoas não estavam nem aí pra mim. Em seguida, reparei num botão levemente escondido embaixo do balcão. Ele era vermelho e brilhante. O que todo mundo sabe que é um convite para ser apertado.
          
E assim, eu o fiz. De repente, uma campainha alta ecoou por todo o supermercado. Pessoas sorrindo, funcionários aplaudindo e balões caindo do teto. Eu fiquei apenas olhando, assustado e paralisado.
          
— Parabéns! Você é a nossa milionésima cliente! — a caixa disse pra minha mãe, e continuou — agora basta apresentar seu cartão fidelidade e prontinho: você tem direito a fazer compras de graça por um mês!
           Minha mãe sorriu sem graça, coçou a cabeça e respondeu:
           — É que eu não tenho o cartão, nem sou daqui. Inclusive, tô indo embora daqui a poucos dias.O sorriso da caixa murchou junto aos balões e ela explicou para minha mãe que nem adiantava fazer na hora, era só para quem já possuísse o cartão.
          
Saímos do mercado e eu fiquei sem entender como tudo aquilo aconteceu.        “Será que tudo foi feito por mim, como um Deus controlando o destino das pessoas? Ou teria sido só um acaso muito bem coreografado?”
          
Fiquei o resto dos dias com a pulga atrás da orelha. Até que tivemos que voltar ao mercado para uma última compra antes da viagem, ou seja, minha última chance para testar minha teoria.
           Passei as compras inteiras mais frenético que o normal. E quando fomos pagar, novamente, um dos caixas estava vazio. Minha mãe tinha pego poucos produtos, então eu não tinha muito tempo. Nem cheguei a sentar na cadeira, fui direito para o botão vermelho, respirei fundo e aproximei minha mão calmamente. Pressionei-o por 2 segundos e soltei. Foi o bastante para eu poder ouvir o comecinho do alarme ao fundo, tão rápido que ninguém notou, ninguém aplaudiu e nenhum balão caiu. E assim, pudemos ir embora, tranquilamente, sem alarde, sem promoção, a minha mãe com as compras e eu, com meu segredo.