Especialistas em tudo, experiência em nada.
Dizem que a origem do Sommelier veio da França: “era o carroceiro dos castelos e palácios, que, por transportar as pipas de vinho, acabou sendo incumbido de provar seu conteúdo antes que fosse servido aos reis”. Séculos depois, virou nome da profissão que é especialista em bebidas alcoólicas. E até aí tudo bem, faz sentido pela história. Mas, por algum motivo desconhecido, de uns anos pra cá, Sommelier se transformou num especialista em opinar sobre a vida dos outros.
Tenho em mim que a porta de entrada foram as velhinhas. Elas, do alto de suas janelas e sacadas, sempre opinaram sobre o que não era da sua conta. Sem problemas, pois, se você não sabe, essas fofoqueiras de maior idade são patrimônio mundial da UNESCO e todo brasileiro tem um pouco delas no DNA.
Acontece que a geração seguinte – as tias solteironas – pegou essa tradição, e, ao invés de fofocar de longe como suas antecessoras, desceram da janela e foram importunar os parentes com uma frase que mudou tudo: “e os(as) namoradinhos(as)?!”. E assim nasceram as “Sommeliers de namoradinhos(as)”, aprovando ou não quem você deve se relacionar. E não por acaso, elas são irmãs das “Sommeliers de filhos(as)”, que vivem dando pitaco na educação dos pequenos que nem são delas. A partir de então, essas opiniões não especializadas e muito menos solicitadas se espalharam como um vírus por aí.
Hoje em dia, tem “Sommelier de vaga”: “não para aqui não”, “estaciona ali que é mais perto da entrada”; “Sommelier de direção”: aquele que, sentado no banco do passageiro, quer dirigir: “dá a seta”, “pega a rua X que não tem trânsito” “te falei pra virar à esquerda 2 ruas atrás”; até “Sommelier de louça” eu já vi: “tem que lavar primeiro as panelas, depois os talheres e aí os pratos”.
Os “Sommeliers de reforma” e os de decoração são bem parecidos. Basta entrarem na sua casa para dar pitaco em como ela seria “mais bem aproveitada se quebrasse aquela parede, num estilo open space” (que eles dizem isso num sotaque inglês cafona).
Já os “Sommeliers de profissão” têm sempre o curso perfeito e pouco confiável para você alavancar sua carreira. Falando nisso, um dos Sommelier mais profissionais que encontrei, treinava kung fu comigo. Um cara que, sem experiência nenhuma em nada, tinha uma opinião formada pra tudo. Era “nosso estilo de luta é o melhor que os outros” pra cá; “se o Brasil fosse igual ao Japão daria tudo certo”, pra lá. Como todo Sommelier, ele se chamava de especialista. Uma boa piada. Afinal, Sommeliers tiram números e lógicas de uma fonte muito única: a própria cabeça.
Com a internet criou-se um campo onde eles aprendem e disseminam sua Sommeliezisse com vídeos e e-books cujos títulos são “o jeito certo de fazer tal coisa” ou “você não pode deixar de…”. Lá, tem “Sommelier de livro” que posta indicação de todo folheto que lê, “Sommelier de filme”, de receita que não cozinhou, de treino que não fez e por aí vai.
A verdade é que, se lá atrás o Sommelier provava o vinho para poupar os reis de algo ruim, o Sommelier moderno não precisa experimentar nada, basta uma opinião rasa, a certeza de que ela é genial e pronto: está aberta uma garrafa de bobagem para você tomar um gole. Eu, particularmente, preferiria veneno.
